okktuso
A luz do final de tarde entrava obliquamente pela janela do quarto, cortando a penumbra com um facho dourado e denso onde a poeira flutuava devagar. O ambiente tinha o cheiro aconchegante de quarto fechado combinado ao aroma sintético de salgadinho de queijo e ao calor sutil dos aparelhos eletrônicos ligados.
No chão, o reflexo azulado e trêmulo da tela da TV iluminava os rostos dos dois rapazes sentados lado a lado, encostados na beirada da cama. A proximidade entre eles era absoluta e natural: os ombros se tocavam a cada movimento dos controles, e o calor da coxa de um atravessava o tecido da calça para se encostar na do outro.
Havia um contraste marcante entre o ritmo agitado do jogo e a atmosfera suspensa do quarto. A cada gol perdido ou jogada errada, o silêncio que se seguia parecia mais carregado do que as próprias risadas. Um toque acidental de dedos ao trocar de controle, o roçar suave de um braço no outro ou um olhar prolongado de lado no escuro carregavam uma tensão elétrica, densa e contida, transformando um espaço cotidiano de amizade num cenário onde cada pequeno gesto parecia prestes a revelar um segredo.