kallitarocha
Entre o silêncio das palavras que foram ditas
e o barulho das que ficaram guardadas dentro de nós,
como se fossem lâminas afiadas,
existia um espaço suspenso -
um intervalo onde o olhar dizia mais do que a boca ousava,
e onde o tempo parecia conter a respiração.
Foi nesse intervalo que Helena Vasconcelos de Alencar existiu por inteira.
Helena tinha 40 anos e carregava no corpo a geografia do mundo.
Não apenas porque era geógrafa,
mas porque sabia ler as linhas invisíveis da terra
como quem decifra cicatrizes antigas.
Seu olhar era firme, desses que já enfrentaram mapas rasgados,
salas cheias de vozes dissonantes
e batalhas travadas em nome de algo maior do que si mesma.
Ativista, ela falava com o peso de quem sabe
que toda palavra é também um território político.
Professora em uma faculdade renomada,
Helena ensinava mais do que conceitos e teorias:
ensinava presença.
Havia nela uma elegância contida,
um cansaço bonito de quem já lutou muito
e ainda assim se recusava a parar.
Do outro lado do abismo invisível,
existia Rebecca Gonçalves da Silva.
Rebecca tinha 25 anos e o mundo ainda latejava dentro dela.
Escritora, poetisa,
carregava palavras como quem carrega feridas abertas -
sensíveis, vivas, urgentes.
Estudante de Geografia,
aprendia a nomear o espaço externo
enquanto tentava, em versos, mapear o próprio caos interno.
Seus olhos eram inquietos,
cheios de perguntas que não cabiam em provas ou cadernos.
Entre Helena e Rebecca,
não havia apenas diferença de idade,
havia tempos distintos da mesma história.
Uma era o depois,
a outra ainda era o durante.
Helena era a terra firme após o terremoto.
Rebecca, o tremor ainda em curso.
E entre elas,
tudo o que não foi dito
continuava ecoando -
não como ausência,
mas como promessa,
como aquilo que, mesmo calado,
nunca deixou de existir.