Lilydragoner
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ApĂłs a dolorosa partida de Mary, o luto se instala silencioso sobre a casa dos Blythe, como uma nĂ©voa que se recusa a dissipar. Gilbert Blythe, outrora tĂŁo pleno de vida e propĂłsito, vĂȘ-se agora abatido pela sombra de uma nova perda, seu coração afogado em saudade e silĂȘncio. Bash, por sua vez, carrega o peso da ausĂȘncia como um fardo diĂĄrio, seus olhos muitas vezes perdidos em lembranças que a realidade jĂĄ nĂŁo pode alcançar. Apenas Delphine, com sua meiguice serena e seus gestos ternos, ousa alcançar os cantos mais partidos daqueles coraçÔes masculinos, oferecendo consolo onde palavras falham.
No entanto, Ă© o pequeno Blythe quem começa a experimentar um mistĂ©rio que escapa Ă compreensĂŁo dos adultos. No quieto das noites, sonhos vĂvidos lhe vĂȘm Ă mente, sempre com a mesma figura feminina, uma jovem de cabelos escuros e abundantes, cuja presença lhe Ă© ao mesmo tempo estranha e familiar, como se habitasse nĂŁo apenas os seus devaneios, mas tambĂ©m um tempo esquecido, uma histĂłria que insiste em ser contada.
E entĂŁo, numa manhĂŁ qualquer, Anne Shirley atravessa a soleira da escola com os olhos arregalados e um brilho curioso na voz. Traz consigo a notĂcia que, como brisa ligeira, logo se converte em vendaval: todos em Avonlea falam da mesma coisa. Da nova moça. Da jovem que surgiu como quem atravessa uma nĂ©voa de mistĂ©rio, e que, para espanto de muitos, parece corresponder em cada traço Ă quela mesma figura que habita os sonhos do pequeno Blythe.
"Ele tentou nĂŁo olhar para ela, como se fosse o sol. Mas, como o sol, ele a viu mesmo sem olhar para ela."
começando: 02/10/2021
Terminado: 01/08/2022
Ilustração da capa: Vivisvversion